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    July 30

    irreconhecível

     
    definir-se como força.
    conhecer o outro como força.
     
     
     
     

    S

     
     
     
    Estou preso nesta contradição: de um lado, creio conhecer o outro melhor do que ninguém e afirmo isso triunfalmente a ele ("Eu te conheço. Só eu te conheço bem!"); e, por outro lado, sou freqüentemente assaltado por essa evidência: o outro é impenetrável, raro, intratável; não posso abri-lo, chegar até a sua origem, desfazer o enigma. De onde ele vem? Quem é ele? Por mais que eu me esforce não o saberei nunca.
     
     
    (De todos aqueles que eu conhecera, X... era certamente o mais impenetrável. Isso porque não se sabia nada sobre o seu desejo: conhecer alguém não é apenas isso: conhecer seu desejo? Eu sabia tudo, imediatamente, sobre os desejos de Y...: ele era como "um gato escondido com o rabo de fora", e eu ficava inclinado a amá-lo não mais com terror, mas com indulgência, como uma mãe ama seu filho.)
     
     
    Reviravolta: "Não consigo te conhecer" quer dizer: "Nunca saberei o que você pensa verdadeiramente de mim". Não posso decifrar você, porque não sei como você me decifra.
     
     
    Se desgastar, se esforçar por um objeto impenetrável é pura religião. Fazer do outro um enigma insolúvel do qual depende minha vida é consagrá-lo como deus; não decifrarei nunca a pergunta que ele me faz, o enamorado não é Édipo. Só me resta então converter minha ignorância em verdade. Não é verdade que quanto mais se ama, mais se compreende; o que a ação amorosa consegue de mim é apenas uma sabedoria: não tenho que conhecer o outro; sua opacidade não é de modo algum a tela de um segredo, mas sim uma espécie de evidência, na qual fica abolido o jogo da aparência e do ser. Experimento então essa exaltação de amar profundamente um desconhecido, que o será sempre: movimento místico: tenho acesso ao conhecimento do desconhecido.
     
     
    Ou ainda: ao invés de querer definir o outro ("O que é que ele é?"), me volto para mim mesmo: "O que é que eu quero, eu que quero te conhecer?". O que aconteceria se eu quisesse te definir como uma força, e não como uma pessoa? E se eu me situasse como uma outra força diante da tua força? Aconteceria o seguinte: meu outro se definiria apenas pelo sofrimento ou pelo prazer que ele me dá.
     
     
     
    [Roland Barthes]
    July 19

    todo adjetivo é insuficiente

     
     
    hoje foi uma terça-feira fria e linda, que começou doce e foi embrutecendo. mas não a ponto de ofuscar este fragmento de Barthes.
     
     

    ²

     
     
    Tenho então acesso (fugidiamente) a uma linguagem sem adjetivos. Amo o outro não pelas suas qualidades (contabilizadas), mas pela sua existência; por um movimento que pode até ser chamado de místico, eu amo não aquilo que ele é, mas: que ele é.
     
     
    [Roland Barthes]
     
     
    July 03

    conduta

     
     
    o amor é fútil.
     
     

     

    Minhas angústias de conduta são fúteis, cada vez mais fúteis, infinitamente fúteis. Se o outro, ocasionalmente ou negligentemente, me dá o número do telefone de um lugar onde posso encontrá-lo a tantas horas, fico logo afobado: devo ou não devo lhe telefonar? (De nada serviria me dizer que posso lhe telefonar - esse é o sentido objetivo, razoável da mensagem -, pois é precisamente dessa permissão que não sei o que fazer.)

     

    É fútil aquilo que aparentemente não tem e não terá conseqüências. Mas para mim, sujeito apaixonado, tudo que é novo, tudo que incomoda, é recebido, não como um fato, mas como um signo que é preciso interpretar. Do ponto de vista amoroso, o fato se torna conseqüente porque se transforma imediatamente em signo: é o signo e não o fato que é conseqüente (pela sua repercussão). Se o outro me deu esse novo número de telefone, isso era signo de quê? Seria um convite discreto para fazer uso imediatamente, por prazer, ou apenas caso fosse preciso, por necessidade? Minha resposta será ela própria um signo, que o outro fatalmente interpretará, desencadeando assim entre ele e eu um tumultuado entrecruzamento de imagens. Tudo significa: por essa proposição, fico preso, ligado ao cálculo, me impeço de gozar.

     

     

    [Roland Barthes]  

     

     

    June 26

    espera

    porque chove.

     

     

    A espera é um encantamento: recebi ordem de não me mexer. Assim, a espera de um telefonema se tece de interdições mínimas, ao infinito, até o inconfessável; me impeço de sair da sala, de ir ao banheiro, até de telefonar (para não ocupar o aparelho); tenho medo que me telefonem (pela mesma razão); me desespero só de pensar que a tantas horas terei de sair, correndo assim o risco de perder a chamada benfazeja, a volta da Mãe. Todas essas distrações que me solicitam seriam momentos perdidos de espera, impurezas da angústia. Porque a angústia da espera, na sua pureza, quer que eu fique sentado numa poltrona, o telefone ao meu alcance, sem fazer nada.

     

    [...]

     

    "Estou apaixonado? - Sim, pois espero." O outro não espera nunca. Às vezes quero representar aquele que não espera; tento me ocupar em outro lugar, chegar atrasado; mas nesse jogo perco sempre: o que quer que eu faça, acabo sempre sem ter o que fazer, pontual, até mesmo adiantado. A identidade fatal do enamorado não é outra senão: sou aquele que espera.

     

    [...]

     

    Um mandarim estava apaixonado por uma cortesã. "Serei sua, disse ela, quando tiver passado cem noites a me esperar sentado num banquinho, no meu jardim, embaixo da minha janela." Mas, na nonagésima nona noite, o mandarim se levantou, pôs o banquinho embaixo do braço e se foi.

     

    [Roland Barthes]

     

    June 23

    ciúme

    trecho brilhante de "Fragmentos de um Discurso Amoroso" sobre o ciúme.

     

     

    Como ciumento sofro quatro vezes: porque sou ciumento, porque me reprovo de sê-lo, porque temo que meu ciúme machuque o outro, porque me deixo dominar por uma banalidade: sofro por ser excluído, por ser agressivo, por ser louco e por ser comum.

     

    [Roland Barthes]

    June 20

    barthes

    se há um livro que me acompanha há anos, é "Fragmentos de um discurso amoroso". um livro que já perdi duas vezes, o que por duas vezes me fez vasculhar desesperadamente os sebos paulistanos atrás de um "novo" exemplar. é tão grande o trauma, que já não empresto.

    mas leio, releio, treleio. e passo a espalhar aqui e ali, de vez em quando, uns trechos que penso soberbos.

     

     

    Querer escrever o amor é enfrentar a desordem da linguagem: essa região tumultuada onde a linguagem é ao mesmo tempo demais e excessivamente pouca, excessiva (pela expansão ilimitada do eu, pela submersão emotiva) e pobre (pelos códigos sobre os quais o amor a projeta e a nivela). [...]

     

    Saber que não se escreve para o outro, saber que as coisas que vou escrever não me farão nunca amado por aquele que amo, saber que a escritura não compensa nada, não sublima nada, que ela está precisamente aí onde você não está - é o começo da escritura.

     

    [Roland Barthes]