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    August 13

    manoelito

     
     
    O sentido normal das palavras não faz bem ao poema.
    Há que se dar um gosto incasto aos termos.
    Haver com eles um relacionamento voluptuoso.
    Talvez corrompê-los até a quimera.
    Escurecer as relações entre os termos em vez de aclará-los.
    Não existir mais rei nem regências.
    Uma certa liberdade com a luxúria convém.
     
     
    [Manoel de Barros]
     
     
    August 09

    ...

     
     
    sorte no jogo
    azar no amor
    de que me serve
    sorte no amor
    se o amor é um jogo
    e o jogo não é meu forte,
    meu amor?
     
     
    [Paulo Leminski]
     
     
    July 24

    marulhoso

     
    porque é um domingo de inverno ensolarado.
    e um pouco de sentimento alonga as juntas.
    e outro pouco de saudade instiga a mente.
    e mais um tanto de beleza esquenta a casa.
     

     [

     
     
    Isso de mim que anseia despedida
    (Para perpetuar o que está sendo)
    Não tem nome de amor. Nem é celeste
    Ou terreno. Isso de mim é marulhoso
    E tenro. Dançarino também. Isso de mim
    É novo: Como quem come o que nada contém.
    A impossível oquidão de um ovo.
    Como se um tigre
    Reversivo,
    Veemente de seu avesso
    Cantasse mansamente.
     
    Não tem nome de amor. Nem se parece a mim.
    Como pode ser isso? Ser tenro, marulhoso
    Dançarino e novo, ter nome de ninguém
    E preferir ausência e desconforto
    Para guardar no eterno o coração do outro.
     
     
    [Hilda Hilst]
     
     
    July 20

    inútil

     
    eu morro de inveja dos poemas do Leminski. morro. são raros os que eu penso "ah, este eu não gostaria de ter escrito". o estilo curto e fundo me deixam sempre embasbacada. como pode ser ao mesmo tempo tão certeiro e tão amplo?
     
     
    hoje estava pensando sobre o texto, prosa ou verso, como uma necessidade egoísta de se expressar. como um prazer, apenas. ou como uma demanda psíquica, sem ter que ter por quê. e em seguida estava lendo Leminski pela nonagésima vez e (re)achei mais um poema que ele roubou de mim. 
     
     
    é um post inútil, sim. porque a vida já anda cheia demais de palavras úteis e gestos conseqüentes.
     
     
     

    S

     
     
    Razão de ser
     
     
    Escrevo. E pronto.
    Escrevo porque preciso,
    preciso porque estou tonto.
    Ninguém tem nada com isso.
    Escrevo porque amanhece,
    e as estrelas lá no céu
    lembram letras no papel,
    quando o poema me anoitece.
    A aranha tece teias.
    O peixe beija e morde o que vê.
    Eu escrevo apenas.
    Tem que ter por quê?
     
     
    [Paulo Leminski]
     
    July 15

    poema 168

     
     
    Que somos nós? Navios que passam um pelo outro na noite,
    Cada um a vida das linhas das vigias iluminadas
    E cada um sabendo do outro só que há vida lá dentro e mais nada.
    Navios que se afastam ponteados de luz na treva,
    Cada um indeciso diminuindo para cada lado do negro
    Tudo mais é a noite calada e o frio que sobe do mar.
     
     
    [Fernando Pessoa]
     
     
    July 10

    menino livre, solto no vento

     
    porque foi um belo domingo. piu.
     
      

    ²

     

     
    O Vento
     
     
    [Manoel de Barros]
     
     
    Queria transformar o vento.
    Dar ao vento uma forma concreta e apta a foto.
    Eu precisava pelo menos de enxergar uma parte física do vento: uma costela, o olho...
    Mas a forma do vento me fugia que nem as formas de uma voz.
    Quando se disse que o vento empurrava a canoa do índio para o barranco
    Imaginei um vento pintado de urucum a empurrar a canoa do índio para o barranco.
    Mas essa imagem me pareceu imprecisa ainda.
    Estava quase a desistir quando me lembrei do menino montado no cavalo do vento que lera em Shakespeare.
    Imaginei as crinas soltas do vento a disparar pelos prados com o menino.
    Fotografei aquele vento de crinas soltas.
     
     
    July 04

    i hope so

     
    madrugada   bar aberto
    deve haver algum engano
    por perto
     
    [Paulo Leminski]
     
     
    May 23

    para meu querido silencioso

    o poema é do Leminski, claro. mas se fosse meu eu não ficaria triste. aliás, eu quero deixar aqui o meu protesto. porque o Leminski e o Manoel de Barros escreveram todas as minhas coisas antes de mim. isso não se faz.

     

    Arte do Chá

     

    [Paulo Leminski]

     

    ainda ontem

    convidei um amigo

    para ficar em silêncio

    comigo

     

    ele veio

    meio a esmo

    praticamente não disse nada

    e ficou por isso mesmo