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    August 09

    peruca estilosa

     
    ontem uma bela mulher me ensinou como se usa uma peruca. de cabelos naturais, faz favor. bem moderna, faz favor. porque nem toda quimioterapia do mundo consegue esculhambar uma mulher bonita que tem estilo.
     
     
    na verdade, o que tenho aprendido com ela é praticamente indizível. é sobre o tempo, os afetos, os abraços e o poder de rir até doer a barriga. é sobre a vida.
     
     
    August 01

    sangue e borboletinhas

     
     
    afinal, por que as pessoas fazem mestrado e doutorado? por que pesquisam?
     
     
    assim, sem considerar as especificidades de cada área, de modo muito genérico, irresponsável e nada científico, eu diria que nem todo mundo tem talento e vocação para ser pesquisador. e que a crise do mercado profissional tem empurrado para a vida acadêmica pessoas que não estão preparadas para ela, que não lhe dão valor e não a reconhecem em sua grandeza.
     
     
    para ser um pesquisador, é necessário ter espirito científico. ser curioso, antes de qualquer coisa. mas não falo do curioso rasteiro que quer a respostinha prontinha para sua perguntinha, e logo se entedia e vai atrás de uma outra coisinha para satisfazer suas pequeninas e descartáveis curiosidades sobre a vida. não. deste tipo, o mundo está cheio. o mundo acadêmico, inclusive. basta de "pesquisadores" rasteiros e ansiosos por novas respostinhas prontinhas que possam citar em suas exibições tituladas.
     
     
    ser curioso é ter dúvidas. incertezas. perguntar sobre algo. não sobre qualquer algo, mas sobre algo: relevante, consistente, importante. observar o ritmo constante do universo e perceber o que está acontecendo. ter sensibilidade para as pequenas nuances. ser capaz de suspender a respiração por um precioso instante (ao contrário dos falsos curiosos, cuja respiração é sempre ofegante). para ser pesquisador, é preciso ter a paciência de um monge e a quietude de um buda.
     
     
    paradoxalmente, é preciso ser autônomo, enérgico, vital, criativo, com grande poder de iniciativa. propor soluções, pensar estratégias, imaginar hipóteses. criar problemas, pensar métodos que permitam resolvê-los, traçar objetivos, projetar resultados. é preciso ter sangue circulando nas veias. o estômago repleto de borboletinhas.
     
     
    acima de tudo trabalhar, trabalhar, trabalhar. o trabalho é duro, é árduo, é lento. só dá frutos depois de muito tempo. é preciso suportar as frustrações e aprender a lidar com um tempo diferente do usual. é um tempo estendido, mas um tempo que acaba. ele é ao mesmo tempo tão longo e tão curto, que chega a ser desconcertante.
     
     
    é preciso querer mais do que o título de mestre ou doutor. é preciso querer saber. amar os sebos, as livrarias, as bibliotecas. invejar os saberes alheios e admirá-los. querer mais e mais e mais. perder a respiração, de tão pouco que se sabe. sentir-se um inseto, de tão pouco que se sabe. ter um prazer indescritível em debater, defender uma idéia, aprimorar os argumentos. convencer e deixar-se convencer. deleitar-se ao reverenciar o interlocutor por uma jogada brilhante.
     
     
    honestamente, não entendo quem abre mão de tudo isso apenas pelo título. não entendo quem concentra toda sua energia na reta de chegada, no título de mestre ou doutor, sem se importar com o processo.
     
     
    entendo menos ainda quem acha que isso tudo "vem" com o título. não, não vem. a maturidade, o prazer de compartilhar, a energia para trabalhar, a imaginação para criar, a sensibilidade não são presentinhos que alguém possa oferecer às pessoas curiosinhas que gostam de respostinhas prontinhas. sangue nas veias e borboletinhas vibrando no estômago não estão à venda.
     
     
    July 29

    happy day

     
    semana interessante. pintinhescamente falando, uma semana histórica.
     
     
    primeiro, tive uma noite de aniversário inesquecível. pelo erro do primeiro lugar, pelo acerto do segundo, pela companhia que acalenta o coração, pela liberdade que isso tudo significa. 
     
     
    segundo, o orkut trouxe mensagens legais de muita, muita gente no meu aniversário. o que prova que é possível se sentir aquecido no ciberespaço. eu me sinto.
     
     
    terceiro, mais uma orientação de mestrado termina, mais uma pesquisa é concluída, mais uma vez encerro ciclos. até me dei um presente de menina.
     
     
    quarto... sei lá. foi e está sendo uma semana legal. precisa ter explicação? piu.
     
       
    July 25

    desejos patifes

     
    eu adoro fazer aniversário. mesmo nas piores fases da minha vida, mesmo quando as coisas na mente e no coração estavam apenas "indo", ainda assim eu adorei fazer aniversário.
     
     
    já passei este dia de todos os modos. viajando sem destino. trabalhando. na cama, doente. na cama, sã. fazendo 24 horas de festa. recebendo amigos. pagando mico. saindo sozinha. vendo 3 filmes seguidos. comendo uma torta especial de morango. caminhando em Buenos Aires. 
     
     
    os amigos vão me perdoar, mas este ano não tem festa. vou apenas sair por aí. porque de repente, aos 41 anos, me dei a liberdade de presente. e porque, apesar de cínica, cretina e patife, eu me sinto apenas: feliz. 
     
     
    de presente eu aceito quase tudo: beijo, abraço, cartão virtual, lembranças, desejos patifes, ticket-refeição. só não vale bife de fígado, perfume doce e, por favor, chateação.
     
     
    piu.
     
    July 17

    olhares machucam mamutes

     
     
    a gente tem a mania de achar que pode tudo. "a gente", aqui, é uma expressão nada científica que comporta graus variados de prepotência. desde o cara que se acha imortal até o cara que acha que, se ele olhar com menos doçura para um mamute, o mamute vai sofrer. vou dar uma dica: eu acho que olhares machucam mamutes. piu.
     
     
    acho que seríamos uma sociedade menos desajustada se debatêssemos a questão do poder. ou do micropoder, como diz Foucault. não há lugar para falar sobre isso, para analisar os pequenos atos em que exercemos poder. pior: não há lugar para debater o nosso poder imaginado, aquele que a gente pensa que tem, mas que efetivamente, puxa, simplesmente não tem. nesse quadro, penso especialmente no poder sobre os sentimentos, desejos e pensamentos e do outro.
     
     
    eu vivo um conflito que deve ser de todo mundo. gostaria de ter algum controle sobre o que o outro pensa e quer. não para manipular, pois logo me canso de pessoas sem personalidade, mas para compreender e me mover de modo mais seguro (you know, olhares machucam mamutes). ao mesmo tempo, a liberdade do outro me fascina, pois é a garantia de ser autêntico. e eu só quero o que é espontâneo. oh god, é um paradoxo.
     
     
    a dor é paradoxal. a dor é um bicho imprevisível. ela vem de repente, às vezes por uma palavra banal, que alguém diz sem imaginar no que está tocando. e em algum tempo a dor se despede, ou se recolhe. hoje é um dia triste, porque seria aniversário do meu irmão. penso que agora trato disso muito melhor do que há seis anos. houve uma época em que eu achava que superar a morte era não sentir nada e que chegaria o dia em que a perda estaria tão bem resolvida, que eu poderia colocar uma tarja na testa: "superei". que bobagem. como se fosse possível encontrar este momento. como se sofrer, de vez em quando, não fosse o preço por estar vivo. pura prepotência: achar que um coração pode continuar batendo se estiver vazio.
     
     
    tudo acaba no mesmo lugar: o modo como queremos exercer poder e controle sobre aquilo que, bem, não temos controle. como a morte de alguém. como o desejo de alguém, ou o desejo por alguém. como a oscilação de humor. como o desejo de ficar sozinho, ou de fazer uma coisa inesperada. porque a incerteza me joga diante de um fato: meu poder é limitado. aliás, é muito limitado. o outro sofre sem que eu possa fazer nada, o outro gosta de coisas que me estarrecem, o outro é livre. o outro é um mamute. e mamutes nem sempre estão interessados em olhares. 
     
     
    a verdade é que a vida nos impõe de repente, sem qualquer aviso, o que Castoriadis chamou de Abismo. o Caos, o Nada, o Sem-Fundo: a morte. o curso da vida nos impõe outros pequenos abismos para os quais não estamos, nunca, preparados. entre eles, o pisar em falso do desejo.
     
     
    e mesmo em um domingo assim, cinza, de vento e de chuva, mesmo em um 17 de julho de saudade e de memória, simplesmente não tenho controle sobre meu desejo de estar em um lugar frio e belo, com o coração batendo, oscilando entre estar alegre e estar triste, querer e não querer, tocar e não tocar, saber e não saber. 
     
     
    July 13

    fim de festa

     
     
    nas duas disciplinas que ofertei neste semestre, na graduação e na pós-graduação, tive um superávit de satisfação. corações batendo, é tudo que quero em uma sala de aula. o meu e os deles. neste semestre, o meu bateu.  
     
     
    July 07

    Nando

     
     
    hoje meu irmão está de aniversário. faz tempo que não nos vemos.
     
     
    quando penso no Nando, lembro de uma fase adolescente em que ele usava calças jeans (naquele tempo, uau, era calça de brim mesmo) boca-de-sino e fumava Minister. era um rebelde, o Nando. escrevia coisas que ninguém podia ler. levava a sério as namoradas. gostou da Ana desde o começo. está casado com ela até hoje. 
     
     
    lembro também de como ficava irritado com pouca coisa, quase nada. intempestivo, explosivo, cheio de sangue nas veias. e sempre cheio de razão, mesmo quando não tinha nenhuma. coisa de canceriano, sabemos. 
     
     
    lembro de muitas, muitas coisas. lembro dele com pneumonia, quando eu tinha uns cinco anos. o quarto onde ele estava era território proibido. não podíamos vê-lo. a casa tinha um ar triste. lembro quando ele entrou embaixo de um caminhão estacionado, em uma madrugada, demoliu a Brasília azul da minha mãe e saiu com um arranhão na testa. lembro que o primeiro rosto, o primeiro olhar, que eu encontrei quando cheguei ao velório do Renan foi o do Nando. e que não era preciso dizer nada, porque toda a incredulidade e toda a dor de perdermos o nosso irmão estavam ali. 
     
     
    lembro de tudo que vale a pena lembrar. guardo tudo que vale a pena guardar. a saudade, inclusive: pra matar no próximo churrasco. 
     
         
    July 04

    pt, saudações

     
    meu primeiro voto foi para o PT. esse bando todo que hoje manda no partido ainda estava no PMDB. meus amigos brigavam comigo porque eu era uma leninista que bebia com os trotskistas. era apaixonada por um, inclusive. 
     
     
    eu era filiada. era militante. depois fui querendo outras coisas, mas minha crença em um partido ético e preocupado em construir um país menos injusto se mantinha. sempre votei no PT.
     
     
    tive minha primeira decepção explícita quando o Lula se aliou ao PL e convidou o Duda Mendonça para a campanha. ainda assim, votei. tive minha segunda decepção explícita quando, logo no início do seu mandato, o Lula conseguiu minguar ainda mais (!!!!) os recursos das universidades federais. uma coisinha após a outra, foi como uma luz que se apagava. já no final de 2003 eu não tinha mais qualquer ilusão.
     
     
    ainda assim, ainda que eu já não tivesse ilusões, dói ver tudo isso. dói porque me sinto traída. não foi para isso que ajudei a construir este partido. quantos se sentem do mesmo modo? muitos, muitos e muitos.
     
     
    e dói porque este país desigual não tem uma única instituição confiável: nem o Estado, nem a Justiça, nem a polícia, nem a imprensa. que futuro há para uma sociedade em que as pessoas que efetivamente são éticas são chamadas de trouxas ou, na melhor das hipóteses, ingênuas? nenhum. a ética está órfã. a ética vai morrer de inanição.
     
     
     
    June 30

    inferno astral

     
     
    digamos que os últimos dias estejam sendo bem difíceis. fico tentando me convencer que é o stress de final de semestre. tantas coisas para fazer, um tempo tão curto, muitos compromissos assumidos. amigos esperando, recados que não respondo. geladeira vazia e eu sobrevivendo, ah, que gostosas, de barrinhas de cereais. três lâmpadas queimadas pela casa e eu fingindo que, ah, me movo super bem no escuro.
     
     
    mas não é isso. é mais abstrato e confuso. é como se estivesse sem pele. nenhuma proteção. o lado racional se mantém em pé, como um touro. um tanque. uma montanha. mas é touro sangrando. tanque desativado. montanha de isopor.
     
     
    June 26

    sugerir, escolher

    acabo de ler a dissertação da Gabriela Hollenbach, sobre a sexualidade nas revistas Nova e TPM. entre tantas coisas a serem ditas, duas: primeiro, que Foucault é alguém que (sempre que eu o compreendo) faz todo sentido; segundo, que de fato nunca sabemos a extensão dos nossos gestos.

     

    a Gabriela me faz um agradecimento: "à Marcia, que escolheu por mim a TPM". há muito tempo, quando ela estava definindo os recortes da pesquisa e a orientadora (a Christa) ainda estava em Barcelona, sugeri que pensasse nesta revista feminina que se pretende diferente das demais. eu ainda tinha na memória a monografia da Larissa. mas, claro, nem eu "escolhi" nada, nem a Gabriela é garota de deixar que escolham por ela. é uma força de expressão.

     

    de qualquer modo, isso me lembra o quão delicado é o lugar de fala "do professor". carregado de autoridade e legitimado por um suposto saber, exala uma gravidade que nem sempre combina comigo. uma idéia pode surgir como decisão. uma sugestão pode soar como definição. uma possibilidade pode parecer indicação. e eu, que tenho o (péssimo) hábito de ir pensando em voz alta, junto com os alunos, e neste movimento vou despejando barbaridades, preciso me cuidar com o que digo. piu. 

     

    June 19

    frio, finalmente

    domingo cinza. domingo frio. 15 graus em Porto Alegre. finalmente, o tempo que eu gosto. mesmo em casa, trabalhando, o dia é bom. embora certamente ficasse mais lindo na estrada.

     

    o meu sobrinho amado, Henrique, tá de aniversário. mais um geminiano na minha vida. mais um presente a definir. mais saudade pra domar.  

     

    June 15

    texto cafona

     

    conheci hoje o Crematório de Porto Alegre. o lado patife manda clicar aqui para conhecer o site do "empreendimento", como diz o folder. mas meu lado patife está, desde ontem, na dosagem mínima. ou seja: este texto será cafona.

     

    desde a morte do meu irmão, o custo de ir a velórios é alto demais para mim. não há quase nada que eu possa fazer a respeito: é apenas difícil demais. me forcei uma vez. foi um impacto que durou muito tempo. hoje me forcei de novo, porque o Ricardo perdeu a irmã que amava - e o Ricardo é uma pessoa que vale o esforço. mas eu ainda não sei o quanto isso vai me custar.

     

    horas tristes levam a reflexões existenciais. quando a morte simplesmente vem e toma, sem nada negociar, a gente se vê colocado diante de questões elementares: o que, afinal, tem valor na minha vida? aquilo que tem valor está, de fato, no topo da lista das minhas prioridades? quem define a hierarquia do que importa: eu ou os outros?

     

    quase sempre concluímos que algo está errado. constatamos que gastamos tempo demais com coisas que valem muito pouco, energia demais com pessoas que valem quase nada.

     

    quando o Renan morreu, eu me atirei no trabalho. tempo era tudo que eu não podia ter. o trabalho era um cantil no meio do deserto. todos os intermináveis problemas que consumiam minha energia soterravam qualquer pontinha de dor, vazio ou abismo que se insinuasse. era uma questão de sobrevivência psíquica.

     

    estou mudando. o processo de abrir espaço para o nada, o ócio, o vazio e o silêncio é lentamente construído diante de um magnífico psiquiatra.

     

    a morte da Helô e outras coisas doídas me levam a entender uma outra coisa (é também uma coisa cafona, mas a maturidade é cafona). se você é uma pessoa forte e com personalidade, é comum que as pessoas deduzam que você pode suportar qualquer tranco - e então se acham autorizadas a dizer coisas duras, pois é óbvio que você não se magoa facilmente, e a ser altamente exigentes, pois é claro que você pode e deve se dedicar às demandas delas. quando você diz "opa, só um pouquinho", elas reagem como se estivessem sendo traídas. mostram-se magoadas e feridas. e fazem questão de dizer que a culpa não é delas, mas sua. 

     

    sentada naquela cadeira azul do crematório, pensando se devia me forçar ou não a entrar na capelinha onde estava a Helô, fui ao fundo de tudo: distinguir entre o que é meu desejo, de verdade, e o que não passa de expectativa dos outros em relação a mim. não entrei.

     

    são sete e meia da noite. chove. os dois últimos dias foram duros. mas a vida se recompõe: nos afetos recuperados pelo jornalista e blogueiro pop que um dia foi aluno, pelo poema repentino, pelo laço apertado do melhor amigo.

    June 12

    estrada

    nada como pegar a estrada. ver outras vidas. fazer xixi em banheiro duvidoso. abrir o mundo.

    o sol surgir e o sol sumir. chuva repentina. estrelas pontuando.

    dizer tudo, nada, qualquer coisa. compartilhar silêncios. perder-se no caminho, encontrar-se na alma.

     

    June 08

    meu boné

    quarta-feira estranha. dia duro. dia difícil. dia de mal-entendidos, irritação, correria, pouco tempo, dor de cabeça. e ainda quente pra caramba. em pleno mês de junho, 30 graus de mau humor.

     

    mas nada disso apaga a doçura de saber que, nesta quinta, vou ver uma mulher que resistiu a todos os tratamentos, a todas as dúvidas e a todas as dores. uma mulher que perdeu o cabelo e descobriu um estilo. uma careca descolada, com muitos bonés coloridos.

     

    vou buscar o meu boné. um que combine com as minhas peninhas e que eu possa guardar como um troféu. piu.

     

    May 31

    cambada de cretinos

    terça-feira. (gostaram do meu novo estilo? virei um calendário. blog de utilidade pública.) não é tão cedo como ontem, porque hoje eu não dava aula e ontem fiquei pintinhando no MSN com um bando de cretinos criativos e adoráveis: Jana, Lenah, Zilene, Bolacha, Alberto, Luiz. faltou o Paulo, mas na próxima ele vai.

     

    a internet ampliou definitivamente os nossos modos de relacionamento. permite reencontrar amigos, conquistar amizades, abrir o coração. não substitui os cafés, os abraços, o cinema. mas acrescenta. pode acrescentar até mesmo um doce amigo azul. piu.

     

    May 30

    segunda-feira

    segunda-feira. pois é. sete e meia da manhã. a cidade já está cheia de sons. sirenes, ônibus, gente apressada. o único som que ouço em mim é o da preguiça. embora, por supuesto, já esteja pronta pra sair, do banho à vitamina C. "por que, afinal, existem as segundas-feiras?",  já perguntava o filósofo Garfield.

     

    por isso é bom ser uma pintinha. posso ficar rebolando por aí e nem preciso dizer coisas inteligentes. para as pintinhas, a Capes não exige "no mínimo" dois ovos em revistas científicas Qualis A. piu.

     

    May 28

    café

    ontem tomei um café com a Larissa e o Tiago no Guion. quer dizer, no Olaria. quer dizer, naquele café que eu não sei o nome, perto do chafariz. sou reincidente, porque eu sempre digo que não vou voltar lá porque acho um pouco caro, mas volta e meia encontro alguém exatamente lá.

    a Larissa foi boicotada pelo cheesecake. na verdade, eles queriam empurrar nela um tal doce russo. mas, como não era nenhum Tolstói, ela bravamente resistiu.

    o Tiago estava, para nosso horror, de camiseta de manga curta. mas obedeceu quando a gente ameaçou bater nele se não se vestisse porque "vai ficar doente, guri". claro que era tática pra mostrar o bronzeado. aliás, nunca vi paulistano de Pinheiros com aquela cor, francamente. 

    e eu adorei tudo. o afeto, a conversa séria, a inteligente patifaria. jornalistas éticos, amigos queridos, memória que me inclui.

    May 25

    é...

    tá, todo mundo se acha "complexo", "diferente" e incompreendido. que seja, que eu seja como todo mundo, apesar das peninhas amarelas. mas pra mim ainda é estarrecedora a idéia de que existe alguém no mundo que me entende.

     

    alguém que sabe o que quero dizer. que está me ouvindo, mas se sabe mais do que um ouvinte: contesta, refuta, estimula. alguém com tanta sensibilidade que entende a sutileza dos 83 tipos de olhar e de alguns contidos gestos. e com tanta personalidade que me diz quando estou errada. que de longe sabe o meu estado de ânimo. e mesmo longe está conectado.

     

    parece banal, mas quem já viveu um pouco sabe que não é. estas não são coisas quaisquer. são tão preciosas e tão raras, que se tornam um cais - o lugar seguro onde aportar depois de todos os cansaços, mas também o lugar ensolarado onde derramar as aventuras e partilhar as descobertas. 

     

    a vida é cheia de tempestades, externas e internas. cheia de dores, angústias, hipocrisias, receios, recusas e abandonos. é cheia de incertezas. uma amizade como esta é um cais, um oásis, um indizível vôo de liberdade e mútua aceitação. para mim, nada mais valioso.