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    May 28

    caio

    Caio Fernando Abreu é uma doce lembrança na minha metade dos anos 80. em uma inacreditável viagem de carro de Porto Alegre a Santa Maria, o autor dos morangos mofados que eu costumava devorar virou astrólogo ou astrônomo, tanto faz, falando sobre as estrelas e a conjunção dos astros. era uma noite linda. a estrada estava vazia. a voz dele era bonita. não consigo descrever.

     

    anos depois, em uma aula do doutorado, minha orientadora, que é especialista em Clarice Lispector, falava sobre epifania. e me lembrei daquela viagem. do que eu havia sentido. do que tinha sido. do que parecia retido na memória como sensação indizível e irrepetível - mas  que continuava lá.  

     

    hoje, navegando no blog do Dênis de Moraes, encontro este texto do Caio. um texto magnífico sobre amor e epifania. um texto sobre Clarice. e é inevitável pensar que a vida é uma grande espiral de impressões, belezas e incertezas.

     

     

    PEQUENAS EPIFANIAS



    Caio Fernando Abreu


    Dois ou três almoços, uns silêncios.
    Fragmentos disso que chamamos de "minha vida".


    Há alguns dias, Deus - ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus -, enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro.


    Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer - eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal - não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de "minha vida". Outros fragmentos, daquela "outra vida". De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos.


    Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mal me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas.


    Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector "Tentação" na cabeça estonteada de encanto: "Mas ambos estavam comprometidos. Ele, com sua natureza aprisionada. Ela, com sua infância impossível". Cito de memória, não sei se correto. Fala no encontro de uma menina ruiva, sentada num degrau às três da tarde, com um cão basset também ruivo, que passa acorrentado. Ele pára. Os dois se olham. Cintilam, prometidos. A dona o puxa. Ele se vai. E nada acontece.


    De mais a mais, eu não queria. Seria preciso forjar climas, insinuar convites, servir vinhos, acender velas, fazer caras. Para talvez ouvir não. A não ser que soprasse tanto vento que velejasse por si. Não velejou. Além disso, sem perceber, eu estava dentro da aprendizagem solitária do não-pedir. Só compreendi dias depois, quando um amigo me falou - descuidado, também - em pequenas epifanias. Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito jóias encravadas no dia-a-dia.


    Era isso - aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria.


    Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome.

    (Publicado em O Estado de S. Paulo, 22/04/86)

    May 26

    um cara "da escrita"

    que belo esqueleto imantado sobre o texto jornalistico, do jornalista poeta que viajava dentro da minha mochila, sob a forma de um estropiado xerox de "Outubro", nos meus tempos de estudante revolucionária. o Nei Duclós que recitava:

     

    Te ofereço um poema
    na tarde nervosa dos teus passos
    molhado com a distância
    que percorro diariamente
    e com a vontade que eu tenho
    de ser teu amigo